quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Plenitude da Religião

A palavra religião tomou um sentido pejorativo nos meios religiosos. Parece uma redundância, mas é exatamente isso. A palavra tornou-se sinônimo de intolerância, legalismo e hipocrisia. Na verdade, penso ser necessário resgatarmos o sentido da palavra que quer dizer religar. Dentro do cristianismo essa palavra sempre teve em mente a religação da relação do homem com Deus, que desde Adão tinha sido cortada, mas a religação deve ser plena, ver o homem por completo. Coloco então os seguintes aspectos:

1 - A Religação do Indivíduo Consigo Mesmo.

O pior divórcio que pode existir é dentro de nós mesmos. Quando ficamos divididos a ponto de perdermos a nossa identidade, quando achamos que devemos viver para a expectativas de grupos sociais, de pessoas e nos tornamos algo que não gostaríamos de ser, que, aliás, não somos. É quando nos tornamos um projeto fora de nós, mas dentro estamos divorciados com essa imagem. Foi Camus que escreveu que quando uma mentira é contada repetidas vezes torna-se verdade até para quem conta. Pura verdade. Precisamos de uma experiência que nos leve a religar nossa vida a partir de dentro de nós. O medo das ambigüidades, dos paradoxos, da angústia de ter de lidar com a ausência de respostas fazem parte desse processo. Rubem Alves foi perguntado uma vez como ele se definia, mas respondeu que não se definia, pois definir é delimitar e delimitar é pôr limites ao que somos, uma vez que nós, enquanto indivíduos, temos que estar abertos a nos descobrir e redescobrir diariamente. Eu não sou a mesma pessoa de anos atrás, também não serei a mesma pessoa de hoje daqui a alguns anos, mas essa mudança não deve ser somente em conseqüência de fatores externos, como novas ideologias de vida que surgem, mas também pelo senso crítica da vida e das expectativas que as aspirações e as experiências pessoais nos trazem.

2 - A Religação com o Outro.

Só podemos ser algo diante do outro. É no outro que também encontramos a nossa identidade. Vivemos tempos de medo dos relacionamentos. Bauman comenta num lindo livro seu chamado Amor Líquido que foi feita uma experiência com ratos onde um fio desencapado era colocado num queijo dentro da gaiola. O rato quando sentia fome mordia o queijo e recebia um pequeno choque, mas como a fome aumentava, ele tornava a morder o queijo e a sentir o choque. Sentida desejo – causado pela fome - e repulsa - causada pelo choque -, quando a repulsa e o desejo atingiram seu limite o rato teve uma forte convulsão. Vivemos o mesmo em relação aos relacionamentos. Por vivermos numa sociedade que incentiva a competição, perdemos gradativamente a solidariedade, a reciprocidade, a camaradagem. Passamos a viver tendo o outro como trampolim ou obstáculo ao sucesso. Temos pessoas isoladas e amedrontadas, mas também carentes de afetividade e aprofundamento das relações. Surge a urgência da religação com o nosso próximo.

3 - A Religação com a Vida


Nossa sociedade nos ensina a competição e o sucesso profissional, junto com os louros sociais que recebemos ao alcançá-los. Passamos a olhar a vida somente deste ângulo, mas a vida é mais. A realização com a vida inclui família, amigos, profissão, deveres, prazeres, enfim, devemos conhecer a vida e vivê-la, buscar a sua plenitude. Jesus disse para não andarmos ansiosos com o que iremos comer ou vestir, porque a vida é maior do que essas coisas.

4 - A Religação com Deus

Jesus disse para não orarmos como os hipócritas que oram nas praças buscando admiração dos outros, mas no quarto, em secreto, com o nosso Pai. Ir além dos ritos das instituições religiosas, da vaidade eclesiástica e do dogmatismo que tornam as instituições iracundas e vazias. Graças a Deus, a fé é algo que pode e deve ser vivida na esfera individual. Muitas vezes repetimos ritos e dogmas somente porque nos foi imposto como algo sagrado, mas podemos ver na vida de Jesus uma pessoa resistente a esses legalismos e ritos vazios. Ele não deixava de praticar seus ritos, mas negava-se a viver sua espiritualidade à partir do dogma, mas fez da vida e do amor seu rito maior, ainda que tivesse seus dogmas. O Pai nos recebe, só devemos ser gratos por isso e ir a ele sendo nós mesmos, para uma relação verdadeira e duradoura.

NOTA:

Temos acompanhado come esperança o estado dominando o complexo do Alemão e a cada apreensão de drogas, armas e traficantes, percebemos uma fagulha de esperança na população. É hora de religarmos aquelas pessoas excluídas à sociedade levando não somente o domínio da força policial - que é de suma importância para manter a paz -, mas também deve haver uma religação daquela comunidade à cultura, educação, saúde e trabalho. Esperamos que a sociedade fique atenta isso, pois caso não aconteça, todo esse esforço terá sido em vão, mas creio que pode ser um novo tempo.

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