quinta-feira, 15 de abril de 2010

Religião e Espiritualidade

Em primeiro lugar gostaria de fazer uma pequena explanação sobre a etimologia da palavra religião e, logo depois, apresentar o que alguns pensadores falam a respeito.
Religião vem do latim, religare, a palavra pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que a humanidade considera como sobrenatural, divino e sagrado, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças.
Durante séculos a palavra religião foi utilizada no contexto cultural da Europa, marcado pela presença do judaísmo e cristianismo que se apropriou do termo latino "religio'. Em outras civilizações não existe uma palavra equivalente. O hinduísmo antigo utilizava a palavra Rita, que apontava para a ordem cósmica do mundo, com a qual todos os seres deveriam estar harmonizados e que também se referia à correta execução dos ritos pelos brâmanes. Mais tarde, o termo foi substituído por dharma, termo que atualmente é também usado pelo budismo e que exprime a idéia de uma lei divina e eterna".
Historicamente foram propostas várias etimologias para a origem de religio. Cícero, na sua obra "De natura deorum", 45 a.C., afirma que o termo se refere a relegere, reler, sendo característico das pessoas religiosas prestarem muita atenção a tudo o que se relacionava com os deuses, relendo as escrituras. Esta proposta etimológica sublinha o caráter repetitivo do fenômeno religioso, bem como o aspecto intelectual. Mais tarde, Lactâncio, no século III e IV d.C., rejeita a interpretação de Cícero e afirma que o termo vem de religare, religar, argumentando que a religião é um laço de piedade que serve para religar os seres humanos a Deus. Na obra "A Cidade de Deus", Agostinho de Hipona, século IV d.C., afirma que religio deriva de religere, "reeleger". Através da religião a humanidade reelegia de novo a Deus, do qual se tinha separado. Mais tarde, na obra "De vera religione" Agostinho retoma a interpretação de Lactâncio, que via em religio uma relação com "religar".
Macróbio, no século V d.C., considera que religio deriva de relinquere, algo que nos foi deixado pelos antepassados.
Independente da origem, o termo é adotado para designar qualquer conjunto de crenças e valores que compõem a fé de determinada pessoa ou conjunto de pessoas. Cada religião inspira certas normas e motiva certas práticas.
Quando jovem, Xenofonte participou na expedição contra Artaxerxes II, liderada pelo próprio irmão caçula do imperador persa, Cyrus, o mais Jovem, em 401 a.C., Xenofonte diz que se aconselhou com o veterano Sócrates se deveria ou não ir com Cyrus, e Sócrates indicou-lhe o oráculo de Delfos. Sua pergunta ao oráculo, no entanto, não foi de aceitar ou não o convite de Cyrus, mas "para qual dos deuses deveria rezar e prestar sacrifício, para que pudesse completar sua pretendida jornada e retornar em segurança, com bons resultados." O oráculo lhe disse para quais deuses. Quando Xenofonte retornou a Atenas e contou para Sócrates o conselho do oráculo, Sócrates o reprimiu por fazer a pergunta errada ao oráculo, mas disse: "Já que você fez essa pergunta, você deve fazer o que alegrará o deus".
É certo que todas as sociedades humanas, desde as mais primitivas, criaram seus mitos e desenvolveram ritos, valores, costumes e uma moral baseada em seu estágio de evolução sócio-econômica e intelectual. A própria figura do sacerdote era entre elas reverenciada; sendo o sumo sacerdote também uma autoridade política, além de religiosa.
Porém, a religião perpassa nas sociedades a função espiritual e também executa um fundamental papel, o de regulador e de manutenção da ordem estabelecida. Portanto, a religião atende, antes de tudo, aos interesses do Estado, e não, essencialmente, a alma humana.
Para Freud, a religião cumpre a função de ajudar o ser humano a satisfazer na imaginação o que na realidade ele não se atreve ou não pode realizar na vida real. A religião, em suas palavras, seria um erro grave e como erro, toda a ambigüidade entre signos, símbolos e realidade, é grande demais para ser real. Trata-se de um delírio da verdade.
Para Wilber (1977), a diversidade das religiões exotéricas reflete a diversidade das ideologias, idiossincrasias e paradigmas culturais.
No filme americano Coração Satânico (Angel Heart) há um diálogo entre o detetive Harry Angel e o misterioso homem chamado Louis Cyphre, que profere a seguinte expressão: "Dizem que há religiões suficientes no mundo para os homens se odiarem uns aos outros, mas não para que se amem".
Todas pregam a mesma coisa: a prática do bem. Todas condenam a mesma coisa: o exercício do mal. Todas afirmam que somos irmãos, somos iguais, que devemos nos amar e unir. Mas todas brigam entre si em nome do amor do seu Deus.
Para Karl Marx, a religião é o ópio do povo. Porque impede que o homem veja sua realidade e lute pelos seus direitos, mas aceitem suas condições de explorados.
As religiões de forma geral criam seus dogmas e liturgias e ensinam aos seus discípulos a necessidade de suas práticas como lei divina. Causam a falsa impressão de que aqueles que andam segundo os seus preceitos, doutrinas e regras evoluem espiritualmente. Entretanto, as transformações que estes discípulos manifestam são externas. Podem até se apresentar com aparências divinas, mas suas atitudes são de condenação e morte. Veja o que diz Jesus dos escribas e fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia." (Mateus 23 : 27). Creio que Jesus procurou mostrar-lhes que sua religião era vã, visto que sua aparência era de religiosidade, mas seus corações estavam cheios de pecados. Pois na verdade a evolução espiritual não ocorrera no homem pelo cumprir a Lei divina (coisa que ninguém é capaz!), mas pelo crescimento
da vida de Deus no homem!
A religião se expressa em poder social e político; a espiritualidade, se expressa em amor nas suas mais variadas formas!
Nesta passagem bíblica temos uma compreensão maior da vontade de Deus na vida dos homens: "Mas os fariseus, sabendo que Jesus fizera calar os saduceus, reuniram-se; e um deles, doutor da lei, para o experimentar, fez-lhe esta pergunta: Mestre, qual é o grande mandamento da lei?
"Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo semelhante a este é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos resumem toda a lei e os profetas". (Mateus, XXII, 34-40. ).
Enfim, os homens podem continuar a ser religiosos e a se esforçarem na pratica dogmática das leis divinas, podem ter aparências de justos e perfeitos; mas não deixaram de buscar seus proveitos próprios e de ostentarem poder. Mas o crescimento da vida interior que agrada a Deus só ocorrerá quando o próprio Deus se expressar no homem!

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